Difìcilmente
poderíamos elaborar uma história propriamente dita da cozinha, uma vez que ela não
está dividida em décadas, séculos ou coisa que o valha como ocorre com outras
matérias. O que existe ele concreto é que o ser humano desde há séculos vem se
debatendo com um problema cotidiano: o de ter que se alimentar a cada momento. Desde a era
das cavernas quando sem qualquer princípio de ética social defendiam-se uns dos outros
na conquista do seu pão de cada dia, até o presente momento, compreendemos fases
características determinadas por fatos históricos que passaram à posteridade. O certo
é que desde aquelas épocas nada saudáveis até o presente momento, grandes e operosas
conquistas se manifestaram no campo da culinária até que alcançassemos esta fase
moderna, compreendida por êstes três últimos séculos.
Sempre defrontou-se o homem com esse elementar problema da sobrevivência, mantida até o
presente momento graças à alimentação diária, não tendo a técnica moderna
encontrado substitutivos para essa amolante mania. Desde há muito, e com muita
convicção, fala-se na era das pastilhas nutritivas, que virão substituir lautos e
opíparos jantares, todavia, enquanto ela não vem, vamos arregaçar as mangas e preparar
nossas refeições.
Quando pensamos em aprimoramento dos usos comes, lembramo-nos em seguida dos gregos, que
foram os primeiros a manifestar interesse pelo preparo de uma suculenta e bem cheirosa
refeição, dedicando surpreendente interesse à cozinha, aliás procedimento esse imitado
de seus contemporâneos persas. Vinham sendo cultivadas nessa época, a música, a
literatura, a poesia e outras artes e, paralelamente, a arte culinária, ficando os
mestres da cozinha da época em plano destacado, no ambiente social de então,
chegando êles a ser chamados de doutores em cozinha.
Paralelamente aos avanços em todos os setores da vida humana, como no campo da filosofia,
literatura, artes, etc. a cozinha também passou a surpreender, criando-se então no mundo
revolucionário das grandes conquistas da época, os molhos, as pimentas e as especiarias
de um modo geral que transtornaram os amantes da society grega da época. Os
gregos que sempre deram lição de cultura e bom viver ao mundo, não poderiam
distanciar-se do campo da faca e do garfo, mesmo porque sua concentração
nesse setor também os projetou para sempre como inovadores e interessados no cultivo da
arte culinária, quando completavam as atraentes mesas com ricas variedades de frutas de
delicioso sabor. Ainda, valendo-se das rotas marítimas que conduziam ao Egito e ao
Oriente próximo, aperfeiçoaram sobremaneira os seus requintes na arte de bem servir e de
preparar pratos saborosos e cobiçados.
Paralelamente a cozinha em Roma estava entregue ao escravo, entrementes êle, de simples
fabricante de pão, passou a doutorar-se na prática da elaboração de bons
menus, ficando considerado pessoa do mais alto prestígio e disputado por reis
e magnatas da época, que os alugavam a pêso de ouro. Tal era o conceito do braço
escravo na cozinha, que quando êle apresentava novidades cobiçadas à mesa, era laureado
com ricos presentes, mas se acontecia queimar-se um cozido ou ocorrer outro incidente
qualquer chegava êle a ser surrado.
Vasco da Gama e mesmo Cristovam Colombo foram os introdutores própriamente ditos na
Europa dos condimentos novos, como o açafrão, a pimenta do reino, a noz moscada, etc.,
autênticos causadores da revolução existida na alimentação da época, enriquecida
pela introdução dessas especiarias, que foram as grandes responsáveis pela atração e
interêsse dos monarcas de então por manjares saborosos e diferentes.
Aliás, ao nos referirmos às especiarias não poderíamos deixar de fazer referências
sem correr o risco de cometer grave injustiça As lendárias e rocambolescas
viagens de Marco Polo às índias de então e suas festivas recepções de retôrno,
quando em meio às gargalhadas as especiarias eram disputadas pelos seus recepcionistas.
Aliás o transporte das especiarias e sua concorrência, constitui capítulo interessante
na história da economia, até o momento citado com largo interêsse por todos os
historiadores do direito comercial e econômico da época.
Posteriormente Catarina de Medícis introduziu na Côrte do rei Henrique II os célebres
cozinheiros italianos que davam lições de culinária e eram disputadíssimos. Tiveram êles grande amparo na França e mestres-cucas concentrados em conhecida corrente, foram
protegidos e projetados por nova lei que Luís XIV promulgou especialmente para defender
os seus direitos, no entanto sómente a partir da Revolução Francesa que os cozinheiros
vieram a ter liberdade, situação que se prolonga até o presente momento.
Cabe entrementes a Luís XIV o título de fundador da cozinha moderna tipicamente francesa
na época em que passou a ser moda entre os grãos-senhores da fidalguia francesa
manter para si um cozinheiro de projeção e famoso. Sua própria filha, inclusive,
projetou-se através de conquistas que a consolidaram na história como exímia cozinheira
e criadora do conhecido pão de Orleans.
Com Napoleão, isto bem depois da Revolução Francesa que não representou muito
em favor da arte culinária porque lutou contra a nobreza é que teve início nova
ascensão da arte culinária, acentuada com o próprio interêsse demonstrado. Era hábito
de Napoleão conquistar as figuras políticas de suas relações através de fantásticos
almoços, que, como o imperador, também passaram para a história. Essa norma passou a ser
imitada por outros políticos, resultando consequentemente na grande projeção que sofreu
a cozinha francesa, cujo sabor e diversificação são únicos no mundo e que vem se
desenvolvendo há séculos, como a primeira das cozinhas, a mais saborosa e também a mais
internacional de todas. Daí caber uma explicação que encerra esta pequena
história. Exageramos numéricamente na apresentação de receitas francesas
exatamente por êsse particular, porque até hoje tudo o que se faz em matéria de arte
culinária naquele país, ainda continua sendo digno do paladar de reis.
E nesta era da panela de pressão em que tudo é mais fácil, e que a indústria pesada e
indústria de alimentação assistem de perto às necessidades ditadas pela cozinha,
criando para elas tôdas as facilidades, é que nos recordamos das dificuldades de um
cozinheiro da antiguidade no atender os paladares apurados dos fidalgos e exigentes
grãos-senhores seus contemporâneos.
Veja Tambem:
A Boa Alimentação
A Cura das Frutas
Como Organizar e servir um Almoço ou Jantar
Cuidados na Arte de Cozinhar
Grandes e Pequenas Gafes a serem evitadas à Mesa